Iniciativa Ambiental - Artigos


COSMOGONIA
A dimensão ambiental e espiritual da vida
por Renaud Russeil - jornalista de meio ambiente e saúde (França)


RESUMO

A vida significa conexões, relacionamentos de quatro formas diferentes: humano, animal, vegetal e mineral. A natureza nos mostra que o quadro de cada forma de vida é um ciclo. O final de cada ciclo coincide com o começo de um novo ciclo. Os relacionamentos entre a vida humana e as outras formas de vida, hoje, estão rompidos. Romper um relacionamento nesse contexto significa romper um ciclo de vida, é uma expressão de violência, opondo-se à própria natureza da vida.

Se todo o universo também passa por ciclos, um após o outro, o final de cada ciclo é um período de preparação do ciclo seguinte. Mas, para reciclar o universo e todos os outros ciclos que ele compreende, há a necessidade de restaurar o relacionamento original que foi rompido. Ao fazer isso, todos os outros relacionamentos, todos os outros ciclos de vida serão restaurados: o relacionamento com o próprio eu restaurará o relacionamento entre o princípio criador e a criação.

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Na origem, o termo “meio ambiente” não se refere a política, energias renováveis, mudança climática ou mesmo sustentabilidade. Tem a ver com relacionamentos, conexões e sentimentos, o lado afetivo da vida. Aprendemos na escola que o mundo é feito de quatro reinos: humano, animal, vegetal e mineral. Tudo no universo é uma forma de vida que pertence a um desses reinos. Sendo vivos, esses quatro reinos se conectam através de diferentes formas de energia. Isto não é filosofia ou ideias, estes são fatos e sentimentos que compartilhamos. Sentimentos têm a ver com a essência da vida, o Ser – ou seja, energia, conexão, relacionamento.

Um mundo conectado

As formas mais comuns de conexão são físicas; nós as percebemos através dos nossos cinco sentidos: (tato, visão, paladar, audição e olfato) pele, olhos, língua, ouvidos, nariz. Há também conexões físicas que são mais sutis. Heinrich Rudolf Hertz as descobriu: ondas eletromagnéticas – formas de energia e conexões que não percebemos conscientemente através dos nossos órgãos humanos (telefones celulares, Wifi, mas também ondas que vêm da terra, do sol e do universo, etc.). Há pessoas que sabem como usar ou manejar essas energias; pode ser através do corpo ou através do meio ambiente (Acupuntura, Shamanismo, forquilhas que encontram água, Fengshui, etc.). Ficamos espantados com aqueles que captam ou conscientemente sentem essas energias invisíveis. Por que eles são capazes de se conectar e nós não somos? É também provável que animais, vegetais e minerais se comuniquem; eles se conectam ou se relacionam naturalmente, usando essas ondas. Isso pode explicar por que a maioria das espécies animais pressente uma calamidade natural que vai acontecer, de modo que possam correr ou voar para longe, ou se enterrar no chão para escapar.

Há também uma energia ou conexão não física. Ela somente se expressa através dos nossos sentimentos, das nossas intuições, da nossa clarividência, em alguns casos. Muitos entre nós já experimentaram isso de uma forma ou de outra. Nossos sentimentos dirigem nossa vida, nossas ações; eles evidenciam a qualidade do nosso relacionamento com tudo à nossa volta; eles influenciam nossa visão, nossa atitude, nosso comportamento e nossas ações.

Considerando a condição de vida hoje, parece que os seres humanos prejudicaram ou romperam muitas conexões. Nosso comportamento diante de outros humanos e da natureza, ou seja, dos animais, vegetais e minerais, ilustra isso.

Ciclos dentro de ciclos

A noção de conexões ou relacionamentos rompidos está ligada a outro aspecto, que qualquer forma de vida cumpre no universo: ciclos. Os ciclos são a estrutura única na qual qualquer manifestação de vida está organizada; da infinitamente pequena à infinitamente grande. Por exemplo, os átomos são constituídos de um núcleo com elétrons girando ao seu redor. Do mesmo modo, galáxias giram no espaço infinito. Entre dois infinitos, a terra gira em torno do sol e gira sobre si mesma. Uma rotação da terra em volta do sol resulta nas estações, enquanto uma rotação sobre si mesma gera o dia e a noite. Os ciclos são a medida dos tempos de vida.

Nós percebemos esses ciclos em três níveis: através dos nossos sentidos, através da nossa compreensão e através dos nossos sentimentos. Mas se observarmos um ciclo de vida, vemos que sua estrutura contém quatro fases. Um dia é dividido em manhã, tarde, entardecer e noite. Um ano é dividido em primavera, verão, outono e inverno. Normalmente, quando nomeamos as quatro estações ou as quatro partes do dia, começamos com primavera ou manhã – não começaríamos com outra estação ou com outro momento do dia. O começo é naturalmente conectado à sensação de novidade, quando tudo funciona suavemente, facilmente. Qualquer objeto também passa por quatro fases: roupas, imóveis, sapatos, carros são inicialmente novos, depois estão em boas condições, depois um pouco velhos, até que se tornam tão velhos que precisamos trocá-los, renová-los, reciclá-los. O mesmo princípio se aplica aos nossos corpos: começamos como bebês recém-nascidos, temos muita energia, depois somos jovens, maduros e, finalmente, acabamos por ficar velhos e fracos. As pessoas que acreditam em renascimento dirão que depois nós mudamos de corpo, nós reencarnamos, porque também há um ciclo de vida nesse nível.

Com esse entendimento, podemos perceber que deve existir um enorme ciclo capaz de conter todos os outros ciclos menores. Podemos chamar isso de o “ciclo do universo” ou o “ciclo da matéria”, o “ciclo da vida”. Logicamente, esse enorme ciclo também passa por quatro fases, exatamente como qualquer outro ciclo: ele tem sua própria primavera quando está no começo, quando todas as formas de Vida são novas (humanas, animais, vegetais e minerais). Há o seu verão, seguido do outono, quando as coisas ficam mais velhas, até que chega o fim do seu inverno. Nesse ponto, o ciclo do universo cumpre sua meta. Em outras palavras, está próximo o momento de um novo ciclo começar.

Dessa forma, todo o universo passa por ciclos a partir de novo até velho, num jogo de bonecas russas, onde os ciclos menores se integram dentro dos ciclos maiores. E nós conhecemos a lei que realiza o processo de envelhecimento: a entropia ocorre do infinitamente pequeno até o infinitamente grande. A entropia de um ciclo de Vida é um processo que tem três fatores associados: 1) tudo tem que ir do novo ao velho, 2) os relacionamentos se rompem, 3) a violência aumenta. Nós conhecemos essas três coisas pela nossa experiência pessoal. Quando ocorrem problemas na família ou com amigos, os relacionamentos rompidos geram sofrimento. Sentimentos de injustiça e violência surgem por dentro – sonhos interrompidos. Parece que a vida nunca será a mesma novamente. Nós devemos perdoar, reconstruir, mas uma parte da nossa confiança estará perdida, porque não conseguimos reciclar nada por conta própria. As muitas formas de conflito e de violência atualmente são testemunhas de muitos relacionamentos rompidos.

Como descrever o relacionamento entre humanos e animais? Eu me lembro de uma página na internet onde podíamos ver um bebê com um coelho e uma maçã. A legenda dizia: “Dê uma maçã e um coelho para uma criança; se a criança brincar com a maçã e comer o coelho, chame-me imediatamente!” Relacionamentos rompidos, ciclos de vida rompidos, violência.

Como os humanos tratam as plantas, os vegetais? Nós sabemos sobre o desmatamento. Também sabemos sobre pesticidas, hibridismo e OGM (Organismos Geneticamente Modificados)... relacionamentos rompidos, ciclos de vida rompidos, violência.

Como os humanos tratam os minerais? Água, ar, terra, combustíveis fósseis, a indústria (petro)química, alimentos processados... relacionamentos rompidos, ciclos de vida rompidos, violência.

Toda vez que rompemos um ciclo de vida, seja entre humanos, com animais, plantas ou minerais, ocorre o mesmo resultado: poluição, não podemos reciclar tudo por conta própria, a sustentabilidade é enfraquecida e desafiada. Isso é violência verdadeira, que, por fim, entra nos nossos sentimentos.

A lei de entropia opera suavemente no começo de um ciclo. Mas, conforme o tempo passa, o mundo passa de primavera para inverno e ciclos, conexões e relacionamentos são rompidos um após o outro. A entropia é a lei do tempo e o ciclo infinito do universo também tem que alcançar seu ponto de ruptura, tem que ser completamente reciclado, para que um novo ciclo comece, vez após outra.

Por ser um velho ciclo final seguido por um novo ciclo que se inicia, nós compreendemos que algo deve estar sendo preparado, algo contrário às aparências. Deve existir algo ou alguém que não participa do processo, internamente, algo ou alguém que está além da entropia, que não rompe ciclos, que não é violento, que é energia, relacionamento, conexão, sentimento. Algo ou alguém que nos ajudará a restaurar a nossa energia de vida, nossas conexões e relacionamentos rompidos com todas as outras formas de vida, ao restaurar o único relacionamento original que fora rompido: o relacionamento com o próprio eu. O Ser. Deve, necessariamente, haver preparações antes que os muitos ciclos de vida, incluindo o ciclo do universo, sejam rompidos. Tal é a regra do jogo que estamos testemunhando hoje através do dilema ecológico, dentre outras questões.

O relacionamento com o próprio eu pode ser restabelecido quando o relacionamento entre o princípio criador e a criação é restabelecido. Esta é a conexão do além, que pode apagar todas as formas de violência do eu interior, para que a paz possa retornar ao universo.

Originalmente publicado em:About Brahma Kumaris