Iniciativa Ambiental - Artigos


ÁGUA E ESPIRITUALIDADE
por Luciana M. S. Ferraz - Socióloga e Coordenadora da Brahma Kumaris no Brasil


A água está presente nos mitos e ritos de todas as religiões e culturas.

São várias religiões que contam a história de uma criança sendo levada dentro de uma cesta atravessando entre duas margens de um rio. Esta é a história de Moisés e também de Krishna, no hinduísmo.

Vários rios foram elevados ao patamar de divindade ou deuses em culturas antigas.

Na Índia temos o rio Ganges que é tido como a encarnação da deusa Ganga e o rio Saraswati, também considerado uma deusa.

O rio Nilo no Egito era tido também como uma divindade.

O rio Jordão teve importância bíblica como as águas onde João Baptista fazia seus batismos.

Há muitas divindades associadas à água, como nos relembra Maurício Andrés Ribeiro.

  • Afrodite, na Grécia, foi nascida da espuma do mar.

  • Netuno, em Roma, era o deus dos oceanos.

  • Indra, na Índia, era o deus do raio, da chuva e dos trovões, e era o chefe dos deuses.

  • Para a tradição chinesa a água é o emblema da virtude máxima, pois segundo Lao-Tse no Tao Te Ching, nada a detém.

  • Na tradição judaica a água é a fonte de todas as coisas e simboliza o transcendente.

  • Na tradição muçulmana a água que cai do céu é considerada um dos signos divinos, segundo o Corão.

  • Na tradição cristã há várias referências à água na forma do batismo, da água benta, do dilúvio e arca de Noé.

  • No livro do Gênesis diz que o sopro e o espírito de Deus pairavam sobre as águas.

  • Na tradição afro, a divindade feminina Iemanjá reina sobre as águas e seu culto é feito no mar.

  • Nas tradições indígenas brasileiras a água junto com os outros elementos da natureza: terra, ar, fogo, floresta, animais, plantas são parte de um ecossistema integrado e respeitados como sagrados.
    Segundo Kaká Werá, “A água é a segunda divindade para os Tapuias e se posiciona ao Sul. Seu nome é Iaci, uma das formas que a respiração do universo assumiu para conduzir a vida. A água para os indígenas é a grande mãe, pois ela participa na manifestação da vida em cada coisa com seu amor incondicional. Herdamos da água a habilidade do sentir e das emoções. A água é o sentimento divino materializado.”

A água é a representação do conhecimento e da vida, talvez porque a água é tão essencial ao corpo como o conhecimento ao espírito. Por isso Deus é chamado de Oceano de Conhecimento, alusão à sua sabedoria infinita. Diz o ditado que mesmo que toda a terra se transformasse em papel, as árvores em pena e o oceano em tinta ainda não haveria fim à sabedoria divina.

A água é descrita como Purificadora e por isso assume um papel tão importante nos rituais das mais diversas religiões em todos os tempos e lugares. Acredita-se que ela tem o poder de lavar os pecados e nos prepara para entrarmos em contato com a divindade. Estes são alguns exemplos da importância dos banhos para o sucesso das cerimônias:

  • Deve-se tomar banho antes dos rituais; 

  • Deve-se tomar banho após fazer funcionar os intestinos; 

  • Deve-se tomar banho antes de se cozinhar se o alimento deve ser oferecido à divindade; 

  • Deve-se tomar banho, lavar a cabeça e colocar vestimentas frescas (limpas) ao término do período menstrual feminino; 

  • Deve-se banhar ao retornar de um velório, enterro ou cremação. 

 

  • Sabe-se que a água, especialmente a água morna tem o poder de equilibrar o pH do corpo e com isto reduzir a acidez do sangue causada pelo stress, proporcionando bem-estar, além disso nos ajuda a estarmos mais despertos. Talvez estas sejam algumas das correlações práticas do benefício dos banhos junto com a questão do asseio e higiene.

  • Sabe-se que perdemos cerca de 3 litros de água através da urina, fezes e suor durante o dia, o que deve ser reposto através da água potável e da água contida nos alimentos.

  • Quando este processo não está bem equilibrado sofremos de várias doenças como prisão de ventre, dor de cabeça e outras mais sérias que advêm do acúmulo de toxinas no nosso organismo.

  • Sabe-se que ao morrer nossas partes moles são as primeiras que se vão, permanecendo apenas nosso esqueleto, que é exatamente nossa parte menos hidratada.

  • Sabe-se que 70% do nosso organismo é composto de água e que uma molécula de água que hoje pertence a mim amanhã pode pertencer a uma planta, a um lago ou a você. Quando entendemos esta cadeia interrelacionada entre todos seres, passamos a ter uma atitude de respeito e responsabilidade com a água que está presente em tudo e em todos e que permite que a vida se expresse em nosso planeta.

 

A água tem muitas qualidades espirituais com as quais podemos nos inspirar:

1. Flexibilidade – nos ensina como sermos maleáveis e não rígidos. Seu grande poder de adaptabilidade faz com que ela se molde ao recipiente em que é colocada.

2. Perseverança – apesar de suave na consistência ela demonstra sua potencialidade com o ditado: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, ou seja, ela não desiste e alcança seus resultados através de sua constância.

3. Diversidade – pode ser encontrada nas formas líquida, gasosa ou sólida (gelo) e em cada uma delas mantém sua essência (H2O) se adaptando conforme a circunstância de calor ou frio. Sua diversidade também é vista na forma do mar (água salgada) e numa infinidade de formações de água doce: rios, lagos, riachos, cachoeiras, poços, chuva etc.

4. Aceitação – o oceano abraça a todos os tipos de rios dentro dele sem julgar ou discriminar: rios limpos, rios poluídos, rios maiores, rios menores, mais ou menos bonitos. Para o oceano todos os rios são iguais e encontram espaço em seu seio.

5. Guardar segredos – o mar ou o rio engole o que entra nele e não revela à superfície o que contém em seu interior profundo. Como um sábio que funde o que vê e o que ouve e não espalha os erros de uns para outros na atmosfera, mas silencia e dissolve.

6. Capacidade de harmonizar – diz o ditado que após a tempestade vem a bonança. Mesmo após uma enchente ou um maremoto as águas voltam a se tornar serenas e tranqüilas, recuperando o seu equilíbrio.

7. Neutralidade – quem pratica esportes na água experimenta grande felicidade e alegria. O prazer de surfar, velejar, nadar demonstram isto. O oposto também é verdadeiro para quem teve a vida de um ente querido roubada pelo mar. O mar ou o rio não criam nossa felicidade ou tristeza. São neutros. São apenas o ambiente, o meio, onde as situações acontecem. Esta neutralidade nos remete à questão da responsabilidade pessoal pelo que acontece conosco em vez de culparmos os outros.

8. Excelente condutor – de pessoas e mercadorias ao seu destino como meio de navegação; condutor de substâncias diversas como medicamento, corantes, ou qualquer outra coisa solúvel. A água humildemente se esconde e permite-se ser usada como condutor para um sabor no caso de uma bebida (chá, café etc.), como remédio em variadas formas (soro, injeção, xarope, soluções diversas), na indústria cosmética (perfumes, cremes, shampoos etc.), na indústria alimentícia, quando um pó ou mistura ao ser adicionado água vira bolo, sopa, pudim etc. Esta é a generosidade da água, que serve a uma infinidade de propósitos.

Experimentos realizados pelo cientista japonês Masaru Emoto demonstram que as moléculas de água respondem aos pensamentos, às palavras orais e escritas, à música e às várias formas de vibrações, como os sentimentos e emoções.

Quando assumimos a responsabilidade pelo nosso pensar, falar, agir, entendemos que somos nós que estamos criando o nosso mundo.

A água é um espelho do grau de espiritualidade e consciência do ser humano.

Isto fortalece o que temos ouvido em praticamente todas as palestras deste encontro, sobre a importância dos valores e da ética no cuidado com a água e sobre as políticas públicas só alcançarem sucesso quando as pessoas são envolvidas e transformadas se tornando agentes conscientes do processo. A razão disso é simples, é porque só quando eu mudo o mundo muda.

Oficina temática: "Outras dimensões da água: Espiritualidade, Equidade, Ancestralidade."
Do Fórum Internacional: "Diálogos da Bacia do Prata"
Foz do Iguaçu – Novembro 2005