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Anthony Strano explica o que acontece quando temos um relacionamento direto e pessoal com Deus e por que isso é importante.

Lembro-me quando tinha 13 anos e pensava: “O que eu vou fazer da minha vida? Tenho a energia e as aspirações da juventude – o que vou fazer?” Eu estava crescendo na Austrália, um país muito livre; você pode fazer praticamente qualquer coisa que goste naquela idade. Peguei então a Bíblia e abri-a aleatoriamente. E ali estava a passagem na qual Deus perguntara a Salomão: “O que é que você gostaria, acima de tudo?”. Fiquei surpreso, porque Salomão não pediu por mais dinheiro ou um palácio maior ou qualquer coisa assim; ele apenas disse: “Eu gostaria de ter sabedoria”.

Pensei: “Isso é algo bom para se pedir, ser sábio e entendido”. Mais tarde, li outro texto que dizia: “Cuidado com a juventude! A juventude é como a grama verde. Hoje está fresca e resplandecente e amanhã estará seca e o vento virá e simplesmente a levará embora”. Então comecei a pensar: “Quando eu tiver 30 ou 40 anos e olhar para trás e refletir sobre o que eu tiver feito, o que direi? Estarei feliz com as decisões que tomei?” Lembro-me daquele dia inteiro simplesmente ficando em silêncio. Sempre gostei do silêncio. Ele era um espelho através do qual podia entender muitas coisas, não analiticamente, mas podia senti-las. Eu tinha a característica de nunca acreditar completamente na minha própria percepção sobre as coisas. Achava que era fácil iludir-se, portanto cada um deve sempre ter um ponto dentro de si a partir do qual observar-se.

Num dia de Natal, acordei bem cedo e decidi ir à floresta. Tinha acabado de amanhecer e havia um pinheiro oval com bastante orvalho sobre ele. Eu fiquei observando-o. O sol levantou-se cada vez mais alto, os raios de luz alcançaram as gotas de orvalho e o vento começou a soprar. Foi uma experiência muito linda. Todas aquelas gotas de orvalho começaram a refletir muitas cores diferentes – verde e azul, vermelho e amarelo – e à medida que o vento soprava levemente, as cores mudavam. Foi como um presente de Natal para mim, a árvore de Natal da natureza. Então, é claro, o sol levantou-se completamente, e tudo aquilo terminou. Pensei que seria bom ser como uma daquelas gotas, de alguma forma capaz de refletir algo escondido, algo silencioso, mas também muito bonito.

Comecei a perceber que para se ter uma conexão verdadeira consigo, com Deus e com outras pessoas, é importante manter uma fé muito profunda e uma humildade muito consistente, porque a fé em você, em Deus e em outras pessoas ajuda-o a ir além de muitas dificuldades, dúvidas e testes, e o torna confiante de que – muito embora você possa não entender – sempre há uma solução. Você também precisa de humildade para jamais cair na armadilha do “EU SEI”.  Mantenha sempre o “eu” aberto, pois somente quando estou aberto é que a verdade é dada ao “eu” como um presente. Todas as coisas divinas são presentes; o único esforço que alguém precisa fazer é posicionar o “eu” de tal maneira que seja capaz de receber aqueles presentes. Ao receber aqueles presentes, eles aumentam na medida em que forem compartilhados. Mas você simplesmente os compartilha como um instrumento – não como aquele que fez os presentes. Quer seja de sabedoria, de paz, de felicidade – eles foram dados, absorvidos e compartilhados.

Quando você lê sobre encontros de outras pessoas com Deus, descobre em alguns deles que aquilo transforma suas vidas, torna-se a fundação de toda a vida deles. Outros têm isso, mas então esquecem-no e perdem-se na rotina novamente, perdem a consciência, a maravilha daquele encontro. Quando há um encontro genuíno com o divino, o ser humano sente três coisas – transformação profunda, percepção profunda e grande inspiração.

TRANSFORMAÇÃO

A transformação é conduzida pelo desejo de realmente mudar o “eu”, de retornar a algo puro e original que foi esquecido ou que foi poluído, sabendo muito profundamente que se houver essa transformação dentro do “eu”, certamente essa pessoa estará pronta para ajudar e cooperar com outros seres humanos. Uma transformação profunda somente vem quando há aquele encontro com Deus, porque aquilo que transforma as profundidades do “eu” é o amor. Se Deus permanece abstrato, como para muitas pessoas, então há uma transformação muito pequena. Quando Deus torna-se pessoal e real, essa pessoa é capaz de experimentar o relacionamento, e é através do relacionamento que ela começa a experimentar o amor que lhe dá fé nela mesma e a coragem para mudar.

INSIGHT

O encontro, silencioso e muito pessoal, frequentemente não pode ser descrito. De algum modo ele não deveria ser descrito demais. No silêncio surge o insight. O insight é a abertura do terceiro olho, e a cegueira espiritual é levada embora – em particular, a cegueira de ser muito crítico sobre coisas e pessoas, de perder-se na fraqueza de outros e de ficar atrás de coisas triviais. O insight é onde sou capaz de ver a realidade positiva de outros, não importando qual possa ser sua aparência, não importando quão negativos eles possam parecer ser. O insight de alguém que encontrou Deus é ver através dos olhos Dele, ser capaz de ver os outros como seu irmão ou sua irmã. É esse insight que começa a criar um senso de unidade e amizade e um senso de pertencer a todos.

INSPIRAÇÃO

Um encontro pessoal com Deus também me dá grande inspiração. O impossível pode tornar-se possível. Não há nada que eu não possa fazer. Sempre há aquele suporte, aceitação, fidelidade de Deus no relacionamento Dele com você. Ele não o abandona ou o diminui, mas o segura. Você é sagrado para Ele. É uma grande inspiração quando você sente isso, não apenas saber disso intelectualmente, mas também senti-lo.

Ir do abstrato ao real é algo para o qual todos nós temos de nos esforçar. Isso vem ao entrarmos em quietude, silêncio e prontos para ouvir. Quando há esse encontro, sua fé e coragem são fortalecidas. Sempre há testes, problemas, dificuldades, mas você tem sempre aquela força para superá-los, pois agora é capaz de olhar e ver com outro “olho”. Você vê com um olho invisível, ouve com outro ouvido, um ouvido invisível. Você não precisa ver tudo pronto e tangível na sua frente. Eu não preciso ver a solução, porque sei que ela está lá e que virá na hora certa. A pessoa que tem um encontro genuíno e uma experiência contínua desenvolve muita doçura, generosidade, tolerância – mas especialmente não violência. Eles nunca pensam que são melhores ou superiores, nem inferiores. Há um sentimento de igualdade com relação aos outros – que os outros são tão bons quanto eu, que o que quer que eu tenha de bom em meu próprio eu, outros também têm.

Quando você tem esse encontro genuíno com Deus, a visão de universalidade é restabelecida e há uma atenção em mudança pessoal e doação. Nunca há um senso inflado de superioridade. Entretanto, muitos esquecem de proteger seu encontro genuíno com Deus com humildade e autorrespeito. Ao invés disso, eles começam a dizer: “Eu tive essa visão, eu vi essa luz e recebi essa mensagem”. Então, o que fiz com a mensagem, com a luz? Será que cresci? O crescimento é medido pelo respeito que tenho pelos outros e pelas atitudes não violentas com relação a tudo. Aceito quaisquer diferenças como algo divino e contribuição para o mundo; percebo que tais diferenças não limitam, mas enriquecem.

Uma coisa é muito importante ao cultivarmos nossos encontros com Deus. Enquanto temos de nos esforçar em nosso movimento na direção de Deus, igualmente precisamos estar conscientes do ponto no qual parar, ficarmos quietos e sermos guiados. Crescemos no Ocidente sentindo que temos de criar tudo, temos de fazer acontecer, que depende de nós. É em certo sentido, mas nem tudo depende de mim. Algumas vezes tenho de apenas me situar. Quando fui pela primeira vez aprender meditação como um método de aproximar-se de Deus, tive experiências muito boas de Deus as quais não esperava conseguir tão rapidamente. Lembro-me, na primeira vez, de sentir Deus não apenas como o Pai, mas como a Mãe. Nunca havia pensado antes sobre a Maternidade de Deus, mas como a mais tradicional Paternidade. Tive o sentimento de Deus, minha Mãe eterna, olhando-me docemente e sussurrando: “Eu o amo como é, não precisa provar-se. Você é o que é e Eu amo e aceito isso. Mas, sim, esforce-se para mudar, para acordar a parte mais pura do ‘eu’ e isso trará a você grande alegria”. Logo em seguida senti a Paternidade de Deus como uma onda de grande suavidade acalmando o “eu”. Ele definitivamente não era “a autoridade severa no comando”, sobre a qual aprendi na escola.

De qualquer modo, nunca senti que Deus era realmente severo e autoritário. Como Mãe e Pai, Ele era um professor sábio e cuidadoso tentando manter-me no caminho certo.

Quando eu era muito jovem e alguns adultos ficavam aborrecidos comigo, eles diziam: “Deus está observando você, e somente o perdoa três vezes se você for travesso”. Eu realmente ficava com medo, porque sabia que tinha sido travesso muito mais do que três vezes. Diariamente, minha travessura ou “enganos” eram próximos a pelo menos 33!, pois um dia fiz uma contagem consciente de meus “pecados”. Quando você é muito jovem, as coisas que lhe são ditas ficam impressas em você. Mas lá no fundo eu pensava: “Tenho certeza de que Deus não é assim, Deus não mede”. Deus é um amigo. E a bênção de tal amizade benevolente é um verdadeiro presente Dele.

Minha experiência pessoal com meditação é que quando entro em silêncio e sintonizo minha mente e conecto com esse Ponto Benevolente, esse Ponto de Benevolência para todo o universo, quando posso me conectar a essa corrente, sinto-me não apenas com luz, mas com profunda compaixão e entendimento. Nessa compaixão e entendimento há mudança no “eu”, atitudes, visão com relação a outros. É por isso que quando as pessoas falam Deus, Allah ou Pai e então há muita violência em seu comportamento com relação aos outros, está claro que estão muito longe de Deus. Aquele que é puro não pode ser violento, não pode dar tristeza. No silêncio é que temos aquele encontro com O Benevolente. Então somos capazes de nos sentir elevados, nossa consciência é elevada e torna-se positiva, abrigando e se reconciliando com outras almas. Sentimos a alegria de estarmos vivos, de sermos seres humanos. Não rejeitamos nada e não nos apegamos a nada, porque os dois extremos não mantêm o equilíbrio e a harmonia necessários para manter a alegria.

Quando temos um encontro com Deus, experimentamos a Paternidade de Deus, a Maternidade de Deus e acima de tudo a amizade de Deus, doce amizade. Sim, os egípcios antigos estavam muito certos, Deus o Pai, a Mãe, é o Senhor da Doçura, e é essa doçura que tira a amargura do passado e nos permite experimentar o poder do perdão, largar as coisas, não guardar ressentimentos. Quando há esse perdão para meu próprio “eu”, posso começar a perceber quem realmente posso ser.

Essa transformação preenchida de amor torna o ser humano espiritual. Um relacionamento verdadeiro transforma-o e liberta-o, ele não prende nem limita. Quando encontramos Deus como Ele verdadeiramente é, nossa consciência eleva-se para um nível de universalidade e compaixão em que não há barreiras de ressentimento, acusação ou medo.

Ser capaz de manter sua coragem, fé e princípios, mesmo em momentos de oposição, e manter um olhar bondoso sobre aqueles que se opõem a você – isso é espiritual! Essa é a habilidade de se ter misericórdia e compaixão para com aqueles que criticam e se opõem. Não é somente uma questão de ser estável e forte, mas ter um olhar bondoso para todos. Para tanto, precisamos do sustento de um relacionamento pessoal com Deus, de outra forma não seremos capazes de fazê-lo. Se não sinto aquele relacionamento, posso ser amável uma ou duas vezes com pessoas que são negativas comigo, mas continuar a fazer isso requer um fluxo de força muito positivo e contínuo dentro do “eu”. É por isso que a meditação é importante, não apenas para o “eu”, mas também para os outros. É na meditação que fico próximo a Deus e experimento o poder que Ele constantemente está oferecendo a mim. Essa proximidade de Deus é chamada de bem-aventurança. Bem-aventurança é uma experiência interna, além do toque, visão ou qualquer coisa física e ninguém jamais pode tirá-la de mim. Eu a levo dentro de mim. 

Anthony Strano era Diretor dos Centros da Brahma Kumaris na Grécia, Hungria e Turquia e faleceu em 2014.

 

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